Epidemia reforça busca de fornecedores fora da China

Valor Econômico - Ana Paula Machado e Stella Fontes.
04/03/2020.

Uma das consequências da epidemia de coronavírus para companhias em torno do mundo parece inevitável: a diversificação de seus fornecedores, para reduzir a dependência em relação à China. Esse processo já começou com a guerra comercial entre EUA e China e deve se aprofundar agora.

O fechamento de fábricas na China devido à epidemia foi logo sentido, afetando indústrias globalmente. Isso porque a China tem um peso crescente nas cadeias globais de suprimento como produtor de bens intermediários, sobretudo em computação, eletrônicos, medicamentos e equipamentos de transportes, assim como grande comprador de commodities.

Com isso, em vários países os apelos à relocalização da indústria se multiplicam. Para o ministro francês de Finanças, Bruno Le Maire, é urgente a necessidade de examinar a fundo as vulnerabilidades de suprimento da indústria francesa. “Essa epidemia mostra que, em certos setores, as dificuldades de suprimento trazem um problema estratégico”, disse Le Maire, dando como exemplos os setores automotivo e farmacêutico.

A Comissão Europeia (CE), braço executivo da UE, indagada sobre eventual ação para reduzir a dependência europeia em relação à China, observou que “o surto de coronavírus apresenta certas implicações econômicas e comerciais, no entanto, é muito cedo para avaliar a extensão exata disso, devido à incerteza de sua duração”. A CE diz estar monitorando a situação e “estão ocorrendo discussões diárias com os setores industriais da UE afetados para identificar os impactos e consequências econômicas do coronavírus da maneira mais eficaz possível”.

Marc Julienne, especialista em China no Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), fala de onda de choque causada pelo covid-19 no conjunto dos setores econômicos mundiais ligados à China. “Em caso de epidemia, catástrofes naturais ou instabilidade política, uma empresa dependente da China expõe sua atividade inteira a um forte perigo”, diz ele. “Agora numerosas empresas estão tomando medidas para encontrar novas cadeias de suprimento, para tentar reduzir essa dependência.”

Para a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), perturbações temporárias no suprimento poderiam ser resolvidas com estoques. Ocorre que os níveis de estoques hoje são muito baixos, com o processo de produção “just in time”, e fornecedores alternativos tampouco podem ser facilmente obtidos para peças e insumos especializados.

O ministro Le Maire exemplifica que o setor automotivo francês não pode ser dependente em 95% de baterias elétricas produzidas na China ou em outras partes da Ásia. Daí porque, diz ele, França e Alemanha decidiram criar uma produção desse equipamento para serem independentes e repatriar a criação de valor para a Europa.

No setor automotivo, a produção num Estado americano pode ficar comprometida até com a falta, por exemplo, de um pedal de freio cuja produção foi interrompida na China. Nos EUA, a expectativa é que a indústria automotiva deverá ter problemas de abastecimento nas próximas semanas, com a falta de certos componentes. Isso pode afetar especialmente General Motors, Ford e Fiat Chrysler, segundo analistas. A escassez de peças já afetou a produção em fábricas no Japão e na Coreia do Sul.

A epidemia paralisou também a fabricação chinesa de princípios ativos cruciais para produção de medicamentos no mundo inteiro.

O ministro Bruno Le Maire estima que 80% das matérias-primas para componentes ativos de um remédio vêm da China ou da Ásia. É evidente, e a epidemia demonstra, que isso pode colocar um problema de independência sanitária no médio e longo prazos”, diz.

Na Europa, um país relativamente tranquilo sobre o abastecimento é a Suíça, centro de grande produção farmacêutica. Os laboratórios suíços importam 60% do que necessitam da própria Europa e somente 27% da China e da Índia.

Um empresário diz que a diferença agora é que os executivos de grandes grupos internacionais parecem dispostos a pagar um pouco mais por insumos para não precisar
parar a produção quando houver uma febre suína, sars ou coronavírus. Além disso, a pressão ambiental, com críticas ao transporte de cargas, já vinha empurrando algumas empresas a repensar seus vínculos com a produção chinesa.

Outro aspecto citado por analistas é o avanço do comércio eletrônico, no qual a entrega rápida é importante e produzir perto do consumidor é um fator de concorrência. Nos EUA, a reforma tributária feita por Donald Trump ajuda a relocalização de empresas no país.

Para Marc Julienne, do Ifri, o que vai ocorrer não é que as empresas vão reduzir drasticamente a compra de fornecedores chineses. Mas a diversificação de certas cadeias de produção, como já ocorreu no setor têxtil, veio para ficar com esse coronavírus.