Hypera compra ativos da Takeda e briga pela liderança no Brasil

Valor Econômico - Ana Paula Machado e Stella Fontes.
03/03/2020.

Pouco mais de sessenta dias do anúncio da compra da família Buscopan, a Hypera Pharma venceu a disputa pelos ativos de medicamentos sem prescrição (OTC, na sigla em inglês) na América Latina da japonesa Takeda. Oferecendo US$ 825 milhões, a farmacêutica brasileira desbancou concorrentes diretos no mercado nacional, como a EMS, que chegou a ofertar US$ 750 milhões, apurou o Valor.

Breno Oliveira, presidente da Hypera, disse durante teleconferência com analistas que a compra dos ativos da Takeda foi a maior já realizada na história da companhia. “Marca uma transformação da Hypera. Quando finalizada as aquisições, do Buscopan e da Takeda, mudaremos o nosso patamar no mercado. Seremos a maior empresa farmacêutica do país.”

Somando as receitas da família Buscopan e da Takeda, a Hypera passa a deter R$ 5,8 bilhões pelo critério de vendas ao consumidor (“sell-out”), segundo dados da IQVIA. A EMS fatura R$ 5,7 bilhões.

Oliveira informou que os negócios devem representar um aumento de 30% na receita da companhia e outros 50% no lucro antes juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). Conforme a companhia, hoje, os ativos da Takeda na América Latina têm receita de R$ 900 milhões, já a família Buscopan, comprada em dezembro, fatura R$ 250 milhões. O Ebitda é cerca de R$ 377 milhões e R$ 92 milhões, respectivamente. Há duas semanas, a Hypera enviou ao Conselho

Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a conclusão da compra da família Buscopan para a avaliação. Os investidores receberam bem a aquisição. As ações da companhia tiveram a maior valorização desde a abertura de capital, em abril de 2008, fechando a R$ 40, com alta de 16,62%. O que pode ser motivo de desconfiança para o setor é o aval do Cade ao negócio.

Segundo fonte da indústria, o portfólio combinado pode ser avaliado como sobreposição de classes terapêuticas no segmento de analgésico. Isso porque a Hypera já tem em sua carteira a Doralgina. “Com a Neosaldina [da Takeda], a companhia fica com duas marcas fortes nesse segmento. Pode ser que o Cade avalie que a Hypera tem que se desfazer de uma das marcas para aprovar a aquisição.”

Fora essa questão, o negócio mostrou a força da Hypera no mercado nacional, segundo a fonte. “Para uma companhia aberta é mais fácil ser mais agressiva nesses processos, o mercado compensa os investimentos. Veja a valorização que a empresa teve somente em um dia. Foi um bom negócio.”

O diretor de relações com investidores e financeiro da Hypera, Adalmario Couto, disse que a expectativa é que as sinergias geradas com a aquisição somem R$ 250 milhões a R$ 280 milhões. Adicionando o Buscopan, os ganhos podem chegar a R$ 750 milhões. “Esperamos conseguir as sinergias já no primeiro ano após o fechamento do negócio. Boa parte disso virá com a transferência de produção para nossa fábrica em Anápolis [GO], pois, conseguiremos adicionar ganhos tributários.”

O executivo disse ainda que essa sinergia poderá ser alcançada também com as ações de marketing e no aumento da distribuição dos medicamentos no pequeno e médio varejo. “Temos uma atuação forte nessas áreas.”

Couto ressaltou que a companhia conseguiu uma linha de financiamento de R$ 3,5 bilhões para sustentar esses investimentos. “É uma linha de longo prazo com vencimento para seis anos. Além disso, emitimos debêntures em dezembro que somaram R$ 800 milhões. Fora o nosso caixa de em torno de R$ 2 bilhões. Temos recursos para estes investimentos.”

O executivo afirmou, ainda, que a Hypera avalia contratar operações de hedge como proteção cambial. “Esses investimentos são em dólar e o financiamento em real e as nossas receitas também. Mas, ainda não sabemos quanto vamos contratar”, afirmou. O valor máximo que as operações de hedge deve chegar é de US$ 825 milhões.

O presidente disse que há investimentos em inovação incremental já em curso que podem ser uma extensão de linha do Buscopan. “Temos um pipeline robusto de inovação em diversas classes terapêuticas, buscando diferenciação em categorias em que já atuamos, com introdução de novas tecnologias no mercado brasileiro. Faz parte de nossa estratégia alavancar organicamente o crescimento de nossas marcas com a efetividade de nossa equipes de vendas, marketing e merchandising.”

Com a aquisição, a Hypera entra ainda na área de cuidados para diabetes com a marca Nesina. “Após o fechamento da transação, a Hypera Pharma adicionará quatro novas marcas com faturamento anual acima de R$ 100 milhões a seu portfólio, que passará a incluir 16 no total”, informou.

A Takeda também anunciou ontem que concluiu a venda de um portfólio de medicamentos OTC e de prescrição no Oriente Médio e África para a Acino por mais de US$ 220 milhões, completando a operação anunciada em outubro do ano passado.

Em comunicado, a farmacêutica japonesa afirma que a recente venda de ativos faz parte da estratégia de redução de endividamento – a meta é reduzir a alavancagem financeira, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda a 2 vezes entre 2022 e 2024 – e de foco nas principais áreas de negócio, entre as quais oncologia, gastroenterologia e sistema nervoso central.

A Takeda já havia vendido o Xiidra, colírio usado no tratamento de olhos secos, para a Novartis por US$ 5,3 bilhões, e o Tachosil (esponja de colágeno usada no suporte a suturas em cirurgias hepáticas) por US$ 400 milhões para a Ethicon. Em novembro, anunciou ainda a venda de ativos não-estratégicos na Rússia.