Francesa Sanofitenta reconquistar liderançano Brasil

Valor Econômico - Ivo Ribeiro.
03/02/2020.

Reconquistar a liderança de mercado no Brasil, depois de perder posições para laboratórios nacionais, é a ambição da farmacêutica francesa Sanofi, uma das gigantes mundiais do setor. O caminho passa por ampliar a participação da divisão de especialidades nos seus negócios no país. Essa é a nova fronteira da indústria.

O desafio está a cargo do venezuelano-mexicano, descendente de escocês, Félix Scott, que assumiu o cargo de diretor-geral das operações no Brasil no início de 2019. Por meio da Sanofi Genzyme, a subsidiária brasileira vai direcionar grande parte dos recursos para inovações incremental e radical em medicamentos. No entanto, não deixará de lado as áreas tradicionais – medicamentos de marca, os sem prescrição médica e a de genéricos.

A companhia já conseguiu voltar à segunda posição no ranking nacional, atrás do grupo NC Farma, dono da EMS. Mundialmente, a Sanofi é dona também de uma divisão relevante: vacinas.

A divisão de genéricos, mesmo com margens mais apertadas, é vista como estratégica para o mercado brasileiro. “A Sanofi saiu dessa área na Europa e manteve apenas no Brasil e Colômbia. Tem uma grande fábrica em Campinas (SP), é rentável e contribuiu com cerca de um terço da receita total do Brasil”, afirmou Scott, em sua primeira entrevista no país, ao Valor.

Ele negou que haja interesse em se desfazer da Sanofi Medley, mesmo enfrentando a acirrada concorrência nesse mercado. “É uma marca reconhecida, cresce acima do mercado todos os anos (em nível de dois dígitos) e temos nosso centro de desenvolvimento dentro dessa fábrica”, justifica o executivo. No ano passado, a receita com todos os descontos dessa divisão foi de € 345 milhões (R$ 1,55 bilhão).

Não menos importante são as divisões de medicamentos de marca e sem prescrição médica (os OTCs), como Dorflex, Anador e Atroveran, nomes de referência do laboratório francês no país. No caso dos OTC, globalmente a empresa avalia dar mais independência para esse segmento para que ele possa ter expansão acelerado. Ser um negócio diferente na companhia, assim como vacinas.

Scott entrou para os quadros da Sanofi em 2009, depois de passar por várias multinacionais. Antes de Brasil, esteve no México por quatro anos no mesmo cargo. No grupo francês, ele começou a carreira como diretor-financeiro da farmacêutica na Venezuela no mesmo ano, chegando ao cargo de diretor-geral. Deixou o país, onde nasceu e se graduou em Contabilidade pela Central University da Venezuela, em 2014.

Ele relata que, apesar da crise política e econômica da Venezuela, acentuada nos governos do presidente Nicolás Maduro, a farmacêutica mantém uma operação de atendimento local para pacientes que necessitam de medicamentos que a Sanofi fabrica. Por exemplo, insulina usada no tratamento do diabetes. A unidade fabril foi vendida no ano passado e, atualmente, o laboratório tem no país só 50 funcionários.

“Não podemos abandonar países e populações em situações de dificuldades, como a Venezuela. Temos de dar suporte aos pacientes”, afirmou o executivo. Ele acrescentou que a companhia agiu da mesma forma durante em situações críticas, como os períodos de guerras do Irã e Iraque. Para a Venezuela, disse, as vendas são feitas com pagamentos antecipados por parte do governo.

Já ambientado em São Paulo, onde está a sede do laboratório, Scott diz que a expectativa da companhia francesa para o Brasil é boa, por ser o país um mercado de medicamentos que tem crescido, em unidades e receita, e caminha para ser o quinto maior do mundo até 2030, superando a França. Hoje, é o sexto. Mas tem dois fatores importantes para essa indústria – uma população de mais de 200 milhões de pessoas e com envelhecimento em alta.

Segundo o executivo, a subsidiária brasileira é a quinta no mundo dentro do grupo francês, e segunda dos emergentes, ficando atrás da China. No ano passado, a receita do laboratório no país, considerando todos os descontos, está estimada em R$ 5,96 bilhões (€1,35 bilhão), com base no índice Pharmacy Purchase Price da IQVIA – empresa que audita as vendas da indústria farmacêutica no mundo.

A empresa prevê crescimento de vendas neste ano na faixa de dois dígitos na comparação com o desempenho do ano passado e os investimentos, apenas em inovação incremental, serão de R$ 44 milhões – 10% acima do montante de 2019. O objetivo é ampliar a oferta de soluções terapêuticas em áreas de diabetes, oncologia, imunologia, doenças raras e outras e em inovação radical. Por exemplo, dermatite atópica.

Essas são áreas onde todas as multinacionais farmacêuticas do mundos estão colocando suas fichas. A própria Sanofi vai trazer para o Brasil desenvolvimentos da Synthrox, por US$ 2,5 bilhões, que atua em alta especialidade Com 3.700 funcionários, sendo 48% mulheres, a empresa atua em cinco divisões: CHC – Consumer Healthcare, Medley, Sanofi Pasteur, Genzyme e Primary Care.

Sobre o direito da empresa na compra do Buscopan, remédio vendido pela Boheringer para a Hypera por R$ 1,3 bilhão, o executivo disse que “a decisão dentro da companhia está em avaliação por seu time global” e que há um prazo para tomar a decisão final.