Reino Unido quer acordo com Mercosul, diz Guedes

Jornal Valor Econômico - Daniel Rittner.
23/01/2020.

O Reino Unido tem interesse em iniciar negociações para um acordo de livrecomércio com o Mercosul logo após a concretização do Brexit (a saída do país da União Europeia), segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, que se reuniu ontem em Davos com seu colega britânico das Finanças, Sajid Javid. “Nós queremos e eles querem”, resumiu Guedes, ao fazer um balanço de suas atividades do dia no Fórum Econômico Mundial.

O bloco sul-americano fechou um tratado comercial com a UE no ano passado, que ainda precisa de ratificação parlamentar. O Reino Unido ficaria de fora da redução mútua de tarifas de importação com o Brexit e precisaria negociar do zero novos acordos. “Ele [Javid] me disse que tem urgência com o Brasil. Os britânicos querem mergulhar numa piscina nova”, comentou o ministro.

Segundo Guedes, o Brasil está determinado a levar adiante um processo de abertura comercial. “Nós pressupomos que a Argentina vai nos acompanhar. Se ela não acompanhar…”, brincou, sem completar a frase.

Para o secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais, Marcos Troyjo, que acompanhou Guedes na maioria das reuniões, um acordo de livrecomércio Mercosul-Reino Unido tende a ter uma negociação menos complicada, porque é hoje o país menos protecionista da Europa.

Troyjo acrescentou que o Brasil já pode avançar com os britânicos, isolada e independentemente dos demais sócios no bloco sul-americano, sobre temas não tarifários.

David também garantiu apoio “enfático” de Londres à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), de acordo com Guedes. Ambos falaram ainda sobre a possibilidade de um acordo bilateral para evitar a dupla cobrança de impostos, o que diminui a carga tributária de empresas de um país instaladas em outro.

O ministro esteve ontem com o comissário de Comércio da UE, Phil Hogan, que transmitiu o compromisso de engajamento de Bruxelas com a assinatura do acordo de livre-comércio com o Mercosul. “Está indo tudo bem com o acordo, existe uma maioria [de países] favorável, há um outro ou outro problema, mas vamos superar”, teria afirmado Hogan, segundo relato do próprio Guedes.

Além disso, o ministro brasileiro aproveitou um encontro com CEOs de grandes multinacionais na tarde de ontem para tentar desfazer a impressão negativa deixada pelo comentário, feito ontem, de que “a pobreza é a maior inimiga do meio ambiente” e as pessoas destroem porque “precisam comer”.

Na reunião, fechada à imprensa, Guedes disse que nenhum país deseja desmatar ou ver suas florestas incendiadas, citando inclusive a situação da Austrália, segundo relatos. Desta vez, ele explicou melhor o raciocínio: as maiores cobranças ao Brasil vinham justamente de países que já destruíram suas florestas, por fome e desconhecimento de seus habitantes em outras épocas, ou por ataques a minorias étnicas.

“Agora falei certo?”, perguntou Guedes a interlocutores na saída da reunião. Havia na plateia executivos de empresas como Iberdrola, Enel, Mastercard, Corporación América, Itaú Unibanco e Bradesco.

A declaração de terça-feira, que nos recintos do Fórum Econômico Mundial passou praticamente despercebida, foi alvo de conversas ontem nos corredores de Davos, depois que o ex-vice-presidente americano Al Gore respondeu a Guedes.

No palco principal do centro de convenções, Gore teve um debate com o climatologista brasileiro Carlos Nobre sobre o futuro sustentável da Amazônia. Em referência indireta a Guedes, ele comentou: “Hoje é amplamente entendido que o solo da Amazônia é pobre. Dizer às pessoas no Brasil que elas vão chegar à Amazônia, cortar tudo e começar a plantar, e que terão colheitas por muitos anos, isso é dar falsa esperança a elas. Há sim respostas para a Amazônia, mas não esta”.