Na índia, governo buscará ampliar parceria comercial

Jornal O Globo - Eliane Oliveira.
18/01/2020.

Na linha de que é preciso voltar os olhos para o Oriente e explorar mercados fortes, porém distantes do Brasil, a viagem que o presidente Jair Bolsonaro fará à Índia, dos dias 25 a 27 deste mês, deverá ter resultados concretos, segundo fontes das áreas econômica e de comércio exterior do governo. A informação é que as autoridades indianas manifestaram interesse em um amplo acordo de livre comércio com o Mercosul ” o que significaria a ampliação das atuais 450 linhas tarifárias que têm algum tipo de redução de alíquotas no comércio com aquele país, para algo como 10.200 itens.

Animado com essa possibilidade, Bolsonaro desembarcará em Nova Délhi acompanhado de vários ministros e cerca de 50 empresários de vários setores. A Índia é o país que mais cresce no mundo e, mesmo assim, as vendas para aquele mercado representam apenas 1,25% do total exportado pelo Brasil.

Com um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de US$ 9,5 trilhões, a projeção é que, em 2030, a Índia será a nação mais populosa do mundo, superando os chineses. As trocas comerciais com o mercado indiano, no entanto, são muito baixas, quando se compara com a China, por exemplo. Enquanto a corrente de comércio (soma de exportações com importações) com os chineses é da ordem de US$ 100 bilhões por ano, o fluxo com os indianos está em menos de US$ 7 bilhões.

O Brasil exporta para a Índia mais petróleo, óleo de soja, ouro e açúcar. Já as compras são principalmente de químicos, medicamentos, querosene de aviação e fios têxteis.

” Há muito o que ser explorado. A pauta comercial e os investimentos poderiam ser bem mais diversificados ” afirma o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Índia, Leonardo Ananda.

Segundo o secretário de Negociações Bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia do Itamaraty, Reinaldo José de Almeida Salgado, há possibilidade de um acordo comercial mais amplo com o Brasil e o resto do Mercosul. Ele confirmou que o tema será abordado durante a visita de Bolsonaro à Índia: “Queremos algo mais ambicioso na direção de um acordo de livre comércio, e houve receptividade dos indianos.”

Por outro lado, Brasil e Índia têm tido algumas divergências. Assim como os demais integrantes do Brics (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), os indianos não se conformam com o fato de o governo Bolsonaro, para conseguir o apoio dos Estados Unidos à candidatura do Brasil a membro da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), ter aberto mão do tratamento diferenciado dado a países em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Sem definição sobre visto

De acordo com o cientista político e pesquisador da Universidade de Harvard Hussein Kalout, no plano político, Brasil e Índia vinham se articulando para obter regras comerciais mais justas e equilibradas. Os dois países haviam estabelecido uma parceria estratégica na OMC contra o protecionismo de União Europeia e Estados Unidos, em defesa dos países em desenvolvimento.

“Com os movimentos da atual diplomacia brasileira, o espaço para uma articulação mais sinérgica nesse campo fica limitada. O Brasil abriu mão de sua projeção e de seu um papel de liderança no comércio internacional. Em certa medida, estaremos mais a reboque de outros países do que partícipes ativos na modulação das regras do jogo comercial. O acordo EUA-China é uma bomba para o agronegócio brasileiro”, diz Kalout.
Devem ser assinados acordos em várias áreas: agricultura, previdência, investimento, cibersegurança e bioenergia.