Hypera surpreende concorrentes e oferece R$ 1,3 bi pelo Buscopan

Jornal Valor Econômico - Ana Paula Machado.
19/12/2019.

A proposta de compra da família Buscopan por R$ 1,3 bilhão colocou a Hypera Pharma de volta entre os grandes laboratórios brasileiros dispostos a crescer com aquisições de peso. A reformulação da empresa, que no ano passado trocou de nome em fevereiro, até então era Hypermarcas, e de presidente em abril, após ser alvo de uma operação de busca e apreensão por parte da Polícia Federal batizada de Tira Teima, culmina num lance que surpreendeu pela ousadia de quem até há pouco tempo estava justamente no balcão de vendas e pelo valor final, acima da expectativa do mercado.

Ontem, suas ações tiveram valorização de 3,84%, uma das maiores altas do índice Ibovespa. O preço fechou a R$ 34,91, o que levou seu valor de mercado a R$ 22,06 bilhões. “Essa negociação foi vista com bons olhos pelo investidor e talvez seja essa uma das razões pelo múltiplo tão elevado pelo ativo”, disse uma fonte do setor.

O múltiplo da proposta é bem superior aos índices apresentados em transações deste tipo no setor. O normal é que a negociação alcance um múltiplo de duas a três vezes o faturamento anual dos ativos. Neste caso, chegou a 4,3 vezes. A receita líquida do Buscopan é de cerca de R$ 300 milhões anuais.

A Boehringer Ingelheim colocou o Buscopan à venda em outubro, conforme antecipou o Valor, e a estimativa do mercado era que esse ativo alcançasse no máximo R$ 1 bilhão. A Hypera correu por fora no processo. Concorrentes nacionais como EMS e União Química chegaram a apresentar propostas. A União Química ofereceu R$ 500 milhões pelo ativo, mas deixou a disputa diante de ofertas maiores.

Já a EMS estava cotada a levar a família até a noite de terça-feira. Ela ofereceu, segundo fontes, R$ 1,5 bilhão, mas condicionou a proposta de compra a “ajustes no contrato”, o que não foi seguido pela Boehringer Ingelheim. A EMS então saiu do processo.

A compra ainda depende da posição da francesa Sanofi, que tem a preferência do negócio. Em 2017, a Sanofi fez uma troca de ativos veterinários pelos de OTC com a Boehringer. A francesa tem 30 dias para decidir se acompanha a oferta da Hypera e fica com o Buscopan.

“É uma aquisição cara. É um produto antigo e aumentar as vendas é mais difícil. Necessita de muito investimento em marketing. Além disso, a transferência de fábrica é um processo lento, demora pelo menos três anos. Outro fator, é que nessa negociação não entrou o princípio ativo do medicamento. É somente a marca”, disse a fonte.

A Hypera já havia sinalizado a intenção de investir no segmento de analgésicos e no aumento de portfólio. Serão mais 17 projetos e recursos da ordem de R$ 5 bilhões.

Outro fator que coloca a farmacêutica novamente no jogo é a sua posição financeira. Analistas do Credit Suisse estimam que a relação dívida líquida/Ebitda deverá ficar em torno de 0,4x no fim de 2020. Ao fim do terceiro trimestre, a companhia tinha fluxo de caixa livre de R$ 466,2 milhões. “A alavancagem deve permanecer sob controle. O balanço da empresa não é alavancado e provavelmente permanecerá assim mesmo após a transação, que provavelmente será totalmente paga em dinheiro depois da recente emissão de debêntures de R$ 800 milhões”, avalia o relatório do Credit Suisse.

No início deste mês, o presidente da empresa, Breno Oliveira, disse ao Valor que o crescimento da farmacêutica acima do mercado neste ano foi em razão dos lançamentos que promoveu ao longo de 2019. Segundo ele, a expectativa da IQvia é uma evolução entre 8% a 9% no faturamento do mercado brasileiro no próximo ano. “Devemos manter o patamar de 10% a 12% de alta, que é o que já vemos até outubro. Será um crescimento acima do mercado. É importante ressaltar que cerca de 80% dessa evolução vem dos lançamentos que fizemos neste ano”, afirmou Oliveira na ocasião.

Neste ano, a Hypera lançou 95 produtos, entre medicamentos de prescrição e sem prescrição (OTC, na sigla em inglês). Para 2020, o planejamento é de 391 produtos entre novos projetos e reforço de linhas (lançamentos). “Essa aquisição é complementar ao portfólio de produtos da Hypera e fortaleceria a posição da empresa como líder de mercado no segmento de medicamentos comprados sem prescrição médica”, diz em relatório agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P).

O negócio, além da decisão da Sanofi, depende do aval do Conselho Administrativo de Defesa do Consumidor (Cade). Isso pode causar alguma “dor de cabeça” para a Hypera. O órgão analisa essas transações sob dois critérios: o de classificação de princípio ativo e o de indicação terapêutica. A farmacêutica tem dois medicamentos que concorrem diretamente com versões do Buscopan: o Alivium, um analgésico, e o Atroveran, indicado para dores menstruais. “Com toda certeza terá concentração de mercado. O que o Cade irá avaliar é o quanto isso impactará a concorrência no país”, afirmou outra fonte, essa da área jurídica.

O Alivium vende por ano R$ 133 milhões e é considerado pela Hypera uma de suas “power brand” no seguimento de prescrição, apesar de ser um OTC em sua essência. Já para o Atroveran, a companhia aumentou os seus esforços de marketing para melhorar as vendas no país. “Pode ser que a Hypera tenha que se desfazer de alguma marca para ver aprovada a compra do Buscopan”, afirmou uma outra fonte.

Para os analistas do Credit Suisse, a aprovação pelo Cade não deve ser um problema, pois, “como Hypera tem uma presença diminuída no segmento de antiespasmódicos, acreditamos que não deve ser um grande obstáculo.”