Brasil atrai aportes de farmacêuticas nacionais e múltis

Jornal Valor Econômico - Ana Paula Machado.
16/12/2019.

Com o dólar acima de R$ 4 e a perspectiva de crescimento do setor de 9% neste ano e acima de 10% em 2020, o Brasil tem se tornado atrativo para investimentos no mercado farmacêutico. Há muitos ativos sendo negociados. Em quatro operações, que estão no balcão de vendas, podem ser gerados cerca de R$ 5,5 bilhões. “O Brasil está barato com o câmbio neste patamar além de ter um mercado em crescimento. Isso atrai principalmente investidores estrangeiros. Esse movimento deve permanecer no ano que vem. As perspectivas são boas”, disse Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma).

Um negócio que pode sair ainda neste ano é a venda da família Buscopan pela Boehringer Ingelheim (BI). Segundo fontes ouvidas pelo Valor, a disputa ficou concentrada agora entre os laboratórios francês Sanofi e a americana Procter & Gamble (P&G), sendo que a companhia europeia tem preferência de compra. A brasileira União Química desistiu do negócio após oferecer R$ 500 milhões e não acompanhar propostas maiores feitas pelas concorrentes. Segundo fontes, a transação envolveria entre R$ 750 milhões e R$ 1 bilhão. As vendas do Buscopan chegam a cerca de R$ 300 milhões por ano.

O negócio mais recente fechado foi a compra da farmacêutica Biotoscana pela canadense Knight Therapeutics, em outubro, que pegou o mercado de surpresa. Primeiro por ser uma empresa sem atuação no Brasil. E, segundo por ter pagado um prêmio de 8,5 vezes o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês). A canadense comprou 51,21% do capital da companhia por R$ 595,6 milhões, ou R$ 10,96 por ação. Quando a disputa pelo ativo se iniciou, segundo fontes próximas às tratativas, o grupo de controladores, que inclui a Advent International e a Essex Woodlands, esperava alcançar R$ 16 por papel.

O ativo mais recente colocado à venda á a linha de dermocosméticos GlaxoSmithKline (GSK). Ela quer se desfazer das marcas Fisiogel, Spectraban, AcneAid, Sunmax e Clindo no Brasil e começou a abordar potenciais interessados. A estimativa do mercado é que esse negócio movimente R$ 1 bilhão. Farmacêuticas brasileiras, como EMS e Hypera, e empresas de cosméticos e beleza, como Natura e grupo Boticário, estão entre as companhias com quem a GSK está iniciando conversas, conforme duas fontes. O processo está na fase inicial e é coordenado pela assessoria financeira Greenhill.

Segundo o vice-presidente para a América Latina da consultoria Close-Up, Paulo Paiva, a América Latina desperta o interesse do mundo inteiro em função de ter um mercado com alto potencial de crescimento, em detrimento de mercados mais maduros como o europeu e o americano. “Há oportunidade para crescimento na região, afinal, são 650 milhões de habitantes. Além disso, as farmacêuticas podem investir em melhoria de acesso, incremento em atividades básicas ou em áreas terapeuticas específicas. Há muito espaço para crescer na região”, disse Paiva.

O executivo afirmou, ainda, que este é o momento em que as empresas estão definindo os valores de investimento para os próximos anos. “Por isso, vemos tantos ativos colocados à venda. As empresas definem os seus planos agora. Essa é a hora de vender e comprar”, afirmou Paiva.

Outra que colocou os ativos OTC na América Latina foi a japonesa Takeda. Quatrogrupos farmacêuticos estão mais avançados nessa disputa. As brasileiras EMS e União Química, a italiana Menarini e a uruguaia Mega Labs estão na fase final de propostas pela fabricante do Neosaldina.

As ofertas das quatro interessadas avaliam o negócio em torno de US$ 700 milhões, ou R$ 2,8 bilhões, segundo fontes, menos do que a estimativa inicial da Takeda de obter US$ 1 bilhão pelos ativos. O desconto aconteceu porque a japonesa perderá pelo menos duas licenças de medicamentos na América Latina – o Noripurum, indicado para o tratamento de anemias e deficiência de ferro, que é da suiça Vifor, e o Alektos, um remédio para alergia, da espanhola Faes Farma.

Segundo Mussolini, do Sindusfarma, as grandes empresas multinacionais estão cada vez mais colocando os seus esforços em medicamentos inovadores, deixando espaço para o crescimento de atuação das nacionais e ou menores em medicamentos maduros. “A indústria farmacêutica tem essa característica de muita fusão e aquisição. E acredito que esse movimento deverá permanecer nos próximos anos”, disse Mussolini.