Capacitação da indústria farmacêutica nacional

Lia Hasenclever - Revista Rumos.
Dezembro 2019.

As grandes empresas farmacêuticas nacionais vêm criando conhecimento e construindo acumulação tecnológica, essencial para o processo inovativo de maior complexidade e sustentabilidade, diferentemente da média das transnacionais atuantes no Brasil. Esta tendência de avanço das capacidades tecnológicas das grandes empresas nacionais produtoras de medicamentos foi confirmado a partir de 2008, e se manteve mesmo após a crise da economia brasileira a partir de 20111.

Esta afirmativa fica ainda mais evidente ao se examinar a estratégia inovativa do Grupo FarmaBrasil2. O grupo reúne 12 empresas nacionais: Aché, Biolab, Biomm, Bionovis, Blanver, Cristália, EMS, Eurofarma, Hebron, Libbs, Orygen e ReceptaBio3. Elas respondem por 25% das unidades vendidas no mercado brasileiro e quatro estão entre as dez, e oito entre as 30 maiores empresas farmacêuticas que atuam no país.

Nove empresas do grupo participaram da Pesquisa de Inovação Tecnológica, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, entre 2008 e 2014, e apresentaram um perfil diferenciado em relação às atividades inovativas: 92% delas realizaram alguma atividade inovativa nesse período, enquanto apenas 51% das empresas de produtos farmoquímicos e farmacêuticos atuando no Brasil o fizeram.

Quanto ao tipo de atividade de inovação, as atividades internas e aquisição externa de P&D diferenciam ainda mais fortemente a estratégia do grupo: o percentual gasto em relação à receita líquida nessas duas atividades foi de 3,8% em 2008, atingindo a soma de 5,1% em 2011 e decrescendo de maneira sutil para 4,6% em 2014. Este resultado foi quase o dobro do observado para a indústria farmoquímica e farmacêutica. É importante ainda registrar que a aquisição de máquinas e equipamentos, componente de inovação incorporada e não endógeno, passa de 32,9% do total, na primeira pesquisa, para apenas 2,4% na última. Esse movimento não ocorreu com os fabricantes de produtos farmoquímicos e farmacêuticos, que mantiveram um gasto de 15% nas pesquisas de 2011 e 2014, bem superior ao grupo de empresas do FarmaBrasil.

O grupo mostra, a partir desses indicadores, que está caminhando para tornar endógeno o processo de inovação, por meio do learning by searching e interating, os dois tipos de aprendizados considerados ativos na capacitação tecnológica das empresas na literatura econômica. O foco dessas empresas nos tipos de atividades ressaltados e a sua continuidade permitem maior acumulação de conhecimentos tecnológicos, e, principalmente, a visão de ampliar esses conhecimentos e produzir inovações.

Estes resultados corroboram a evolução das capacidades tecnológicas das empresas associadas ao grupo FarmaBrasil como um caso destacado das empresas farmacêuticas nacionais, já que elas dão maior importância à capacitação interna frente à incorporação de tecnologia e sua superioridade em relação à mera importação de tecnologia do exterior, muitas vezes incorporada em máquinas e equipamentos.

1 – Para aprofundamento do tema, ver Paranhos et al. (2019) em https://www.proceedings.blucher.com.br/article-list/enei2019-322/list#articles
2 – Este estudo de caso está disponível com mais detalhes em Cunha e Hasenclever (2019) em https://www.proceedings.blucher.com.br/article-list/enei2019-322/list#articles
3 – A Orygen é uma joint venture da Biolab com a Eurofarma e a Bionovis da Aché com EMS, Hypera Pharma e União Química; ambas são produtoras de medicamentos biotecnológicos. A Hebron produz fitoterápicos. A ReceptaBio é uma empresa de pesquisa e desenvolvimento (P&D) para medicamentos biotecnológicos.

Lia Hasenclever – Professora aposentada do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente professora colaboradora da Universidade Cândido Mendes. Organizadora do livro Economia Industrial das Empresas Farmacêuticas.