Setor químico posterga novos investimentos

Valor Econômico - por Stella Fontes.
16/10/2019.

A falta de clareza sobre como será o corte das tarifas de importação produto a produto no Brasil e o fato de a proposta de abertura comercial estar caminhando a passos mais acelerados do que as demais reformas acenderam a luz vermelha na indústria brasileira. No setor químico, que já vinha experimentando um forte encolhimento dos investimentos em capacidade produtiva nos últimos anos, esse ambiente levou à postergação de novos projetos, cuja execução dependerá de como se dará o processo de abertura.

Segundo a diretora de Assuntos de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Denise Naranjo, o setor não conseguiu atrair investimentos adicionais neste ano porque não há definição sobre quais serão as tarifas por produto. Para 2019, segundo levantamento da entidade, estavam previstos desembolsos de US$ 600 milhões, com queda para US$ 400 milhões em 2020 e 2021 e novo recuo, a US$ 200 milhões, em 2022. No auge dos últimos 20 anos, em 2012, a indústria química chegou a investir US$ 4,8 bilhões em um único ano.

“A informação de como será [a abertura comercial] daqui para a frente é muito importante. Neste momento, as empresas estão trabalhando com cenários”, disse a executiva. Pelo acordado até agora, as tarifas de importação cairão gradativamente a partir do próximo ano até 2022, em 50% na média, e é provável que o decreto seja assinado nos próximos meses, na esteira da reforma da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul.

No geral, a proposta de abertura comercial do novo governo foi bem recebida pelos diferentes setores da indústria, desde que acompanhada de medidas que possibilitem a recuperação ou o reforço da competitividade dos produtos brasileiros. Neste momento, explica a diretora da Abiquim, a redução das tarifas de importação parece mais avançada do que a “contrapartida” desejada pela indústria.

No início do ano, a Abiquim encomendou um estudo à GO Associados, que mostrou que, para o setor, a abertura comercial é relevante, desde que se dê por meio de acordos. “No caso de haver uma abertura unilateral, do Brasil ou do Mercosul, seria preciso uma contrapartida por parte do Estado”, afirmou. Essa contrapartida poderia vir na reforma das reformas estruturais e, por enquanto, apenas a da Previdência parece mais próxima.

Um grupo de dez entidades que representam diferentes setores industriais, incluindo a Abiquim, e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) já levou essa e outras preocupações relacionadas à abertura comercial ao governo, que indicou que as negociações, agora, ocorrem no âmbito do bloco econômico.

“O setor químico se preocupa exponencialmente, pelo setor em si e pelas indústrias a que atende e também serão afetadas”, comentou Denise. Em linhas gerais, plásticos, elastômeros e produtos têxteis são os que mais inquietam neste momento. O risco de uma abertura comercial sem contrapartidas tende a agravar o desequilíbrio na balança comercial do setor, que tende a marcar novo recorde de importação em 2019.

Segundo a Abiquim, as importações brasileiras de produtos químicos em 2019 deverão ser históricas e levar o déficit comercial do setor para mais de US$ 32 bilhões.

No acumulado do ano, até agosto, o total importado já alcançava US$ 29,2 bilhões, com alta de 5,7%. As exportações, por sua vez, caíram 3,7%, para US$ 8,5 bilhões, resultando em saldo negativo de US$ 20,7 bilhões em oito meses, com crescimento de 10,2%.