Governo reduz projeção, e saldo da balança deve ser de US$ 41,8 bi no ano

Valor Econômico - por Daniel Rittner e Marta Watanabe.
02/10/2019.

A Secretaria de Comércio Exterior (Secex) revisou para baixo sua estimativa de superávit para a balança comercial em 2019. A nova projeção é de um saldo de US$ 41,8 bilhões neste ano. Em julho, o prognóstico era de US$ 56,7 bilhões. Se confirmada a estimativa, haverá queda de 28% sobre o superávit registrado no ano passado. A nova estimativa está abaixo da divulgada pelo boletim Focus, do Banco Central, que coleta previsões do mercado financeiro e projeta saldo de US$ 51,7 bilhões.

A balança registrou superávit de US$ 2,25 bilhões em setembro e acumula saldo de US$ 33,79 bilhões nos nove primeiros meses do ano. Os dados representam redução de 59,9% e de 19,5%, respectivamente, sobre os valores verificados em igual período do ano passado. O superávit até setembro é resultado de exportações de US$ 167,38 bilhões e de US$ 133,59 bilhões em importações.

De acordo com Herlon Brandão, subsecretário de inteligência e estatística de comércio exterior, o Focus indica superávit maior ao fim do ano porque reage de forma mais lenta aos últimos movimentos da balança. Para ele, a revisão da Secex tende a ser mais certeira porque restam apenas três meses no ano e o cenário está traçado. O subsecretário atribui a variação na estimativa à queda das exportações. A projeção passou de um recuo de 2% para 7,1% no ano. Quanto às importações, a expectativa foi de uma queda de 1,9% para 0,4%.

A nova projeção de superávit da Secex converge mais com a estimativa mais atual da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Segundo o presidente da entidade, José Augusto de Castro, o superávit ao fim do ano alcançará no máximo US$ 44 bilhões. Com queda de exportações tanto em valor quanto em volume, diz, a contribuição do setor externo deve ser negativa para a variação do PIB deste ano.

“O cenário realmente aponta retração das exportações”, diz Brandão. A tendência, segundo ele, é global. Na última revisão, a Organização Mundial do Comércio (OMC) diminuiu de 2,6% para 1,2% a perspectiva de crescimento do volume de exportação mundial. “Como os preços internacionais também caem, é provável que o comércio se retraia neste ano.”

Na avaliação do subsecretário, a maior responsabilidade pela deterioração das expectativas é o acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China, além da crise argentina. As montadoras brasileiras mandam para o mercado vizinho cerca de 70% dos veículos exportados para todo o mundo. Nos nove primeiros meses do ano, as vendas totais ao país tiveram retração de 39%.

Com o desempenho, o resultado da balança bilateral com os argentinos deteriorouse e resultou num déficit de US$ 341 milhões no acumulado até setembro. Em igual período de 2018 houve superávit de US$ 4,05 bilhões. A balança com a China, principal destino de exportação do país, sofreu redução de superávit, de US$ 22,1 bilhões nos nove primeiros meses de 2018 para US$ 20,9 bilhões em igual período deste ano.

Os dados da Secex indicam queda na exportação total de 6% em setembro contra igual mês do ano passado. Os básicos e semimanufaturados recuaram, com queda de 14,5% e 32,1%, respectivamente. Os manufaturados avançaram, com alta de 4,4% em setembro, sempre contra igual mês de 2018, no critério da média diária.

A alta da exportação de manufaturados no mês, porém, deve-se a plataformas de petróleo, salienta Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). A exportação de manufaturados somou US$ 7,21 bilhões em setembro. Desse valor, US$ 1,5 bilhão foi em plataformas. Em setembro de 2018 esse item somou apenas US$ 15 milhões. Tirando a plataforma da conta, a exportação de manufaturados caiu 17% em setembro, ainda na comparação interanual, com base na média por dia útil. As plataformas também influenciaram as importações, diz Castro, mas o valor não é informado no relatório da Secex.

Cagnin destaca que, considerando o desempenho dos manufaturados sem as plataformas, setembro é o quarto mês consecutivo com queda nos embarques nessa classe de produtos, indicando que as exportações não devem ser o caminho para uma recuperação maior da produção física da indústria. Da mesma forma que a exportação como um todo não tem contribuído para a reação da economia como um todo.

Cagnin diz que no terceiro trimestre tanto as exportações totais como as de manufaturados voltaram a apresentar queda. O economista usou as médias por dia útil, sempre na comparação interanual. No primeiro trimestre, lembra ele, as exportações totais caíram 5,7% enquanto as de manufaturados recuaram 13,7%. De abril a junho houve um ensaio de recuperação, com alta de 0,4% nos embarques totais e de 2,2% nos manufaturados. No terceiro trimestre, porém, as quedas retornaram, com recuo de 12% na exportação total e de 12,2% na de manufaturados.