Desaceleração global e crise Argentina afetam preços e volumes de exportação

Valor Econômico - por Ana Paula Machado.
25/09/2019.

A desaceleração da economia global e a crise da Argentina têm afetado significativamente as exportações brasileiras. De janeiro a agosto, a quantidade total exportada pelo país caiu 3% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto os preços recuaram 3,1%, nessa mesma base de comparação. Em 12 meses, o volume exportado mostra perda de fôlego considerável – passou de uma alta de 9,1% até abril de 2018 para uma expansão de apenas 1,1% até agosto deste ano. Os números são da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

Os dados evidenciam que a demanda externa é hoje um vento contrário à economia brasileira, que depende hoje da demanda doméstica para crescer. “O cenário global está ficando cada vez mais desafiador para o Brasil”, resume o economista-chefe do Citi Brasil, Leonardo Porto. “Nós vamos ter que contar cada vez menos com ele para a recuperação da economia brasileira.” Segundo Porto, o saldo comercial, que no começo do ano rodava a uma média mensal anualizada de US$ 50 bilhões, na série com ajuste sazonal, hoje está na casa de US$ 33 bilhões.

Ele diz que esse movimento se deve principalmente à evolução do volume e dos preços de exportação do Brasil. O índice de commodities CRB, por exemplo, caiu cerca de 5% desde o fim de julho, afirma Porto. De acordo com números da Funcex, as cotações das vendas externas dos produtos básicos brasileiros recuaram 1,3% no acumulado do ano até agosto. A queda é de 5,1% no caso dos preços dos semimanufaturados e de 2,9% nos dos manufaturados.

No mundo desenvolvido, a indústria mostra um desempenho negativo. Em setembro, o índice de atividade industrial do Instituto de Gerenciamento de Oferta dos EUA, por exemplo, ficou em 47,8%, o nível mais baixo desde junho de 2009.

Porto lembra que a Organização Mundial de Comércio (OMC) reduziu na terça-feira a projeção de crescimento do comércio global para 2019 de 2,6% para 1,2%. A guerra comercial entre EUA e China tem produzido estragos, aumentando a incerteza e afetando as decisões de investimento das empresas. O efeito é a perda de gás da atividade econômica global, com impacto sobre a demanda externa por produtos brasileiros.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que boa parte da desaceleração do volume tem ocorrido nas exportações de produtos manufaturados e seminafaturados – a quantidade vendida ao exterior desses últimos bens caiu 4,5% nos 12 meses até agosto. “A Argentina tem um grande peso, devido ao mercado de automóveis”, afirma Vale.

De janeiro a setembro, as vendas para o país vizinho recuaram quase 40% em valor na comparação com o mesmo período de 2018. “Mas também vemos desaceleração por causa da queda geral de atividade no mundo, especialmente neste ano”, diz ele. “As revisões de crescimento mundo afora também acabam impactando nossas exportações.”

Para Vale, a desaceleração das exportações industriais deverá avançar no ano que vem, com a possível recessão nos países desenvolvidos. “Mas, como somos relativamente fechados, o impacto não é tão grande para o Brasil, especialmente porque estamos com as contas externas em ordem.”

O economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria Integrada, avalia que o setor externo deverá contribuir negativamente para o crescimento brasileiro em 2019 e também em 2020. Para ele, as exportações deverão se estabilizar, na melhor das hipóteses. Já as importações tendem a ganhar algum terreno, dada a perspectiva de recuperação da demanda doméstica. Embora não se espere uma retomada das mais fortes, isso levará a um aumento das compras externas.

Campos destaca que as exportações têm surpreendido para baixo. O cenário global de desaceleração da atividade, num quadro de maior tensão comercial, prejudica as vendas externas brasileiras, diz ele, na linha do que afirmam Porto e Vale. “E para o Brasil há o agravante da crise da Argentina, que afeta bastante o setor industrial.”

Nesse quadro, Campos vai revisar as projeções de saldo comercial da Tendências. Para 2019, a consultoria deve cortar a estimativa de um superávit de US$ 50 bilhões para US$ 45 bilhões ou um pouco menos, com as exportações recuando de US$ 231 bilhões para a casa de US$ 225 bilhões. Na terça-feira, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) reduziu a previsão de saldo deste ano para US$ 41,8 bilhões – em julho, trabalhava com superávit de US$ 56,7 bilhões.