Um comércio exterior desigual

Onésimo Ázara Pereira.
Agosto 2019.

Não é novidade que o mercado brasileiro é, hoje, um dos grandes expoentes mundiais no consumo de bens (mercadorias) que constituem a cadeia produtiva farmacêutica. Esta se compõe, basicamente, dos medicamentos, dos soros e vacinas, dos derivados do sangue e dos insumos farmacêuticos, tanto ativos (farmoquimicos) como inativos (excipientes). Este é um universo altamente representativo no comércio internacional de produtos manufaturados.

Em 2018, esta cadeia produtiva farmacêutica registrou, no Brasil, um movimento de comércio exterior da ordem de US$ FOB 11,563 bilhões, somando as importações e as exportações da referida cadeia produtiva farmacêutica brasileira.

Embora este número do comércio exterior do setor farmacêutico seja realmente significativo, ele mostra de forma clara que este fluxo comercial internacional é muito desfavorável ao Brasil, eis que do total do comércio, 85,4% se referem às importações (US$ FOB 9,877 bilhões) e, apenas, 14,6% se referem às exportações (US$ FOB 1,686 bilhão).

Quando analisamos o desempenho dos segmentos desta cadeia no comércio exterior em 2018 vemos que os medicamentos (incluindo os soros, vacinas e derivados do sangue) importados representaram 87,8% (US$ FOB 6,806 bilhões) e as exportações, apenas 12,2% (US$ FOB 945 milhões) de um total de US$ 7,751 bilhões que representou o fluxo de comércio exterior de medicamentos.

A situação é um pouco melhor quando analisamos o fluxo comercial em 2018 dos insumos farmacêuticos (ativos e não ativos). Os números da Secretaria de Comércio Exterior mostram que naquele período foram movimentados US$ FOB 3,811 bilhões de insumos farmacêuticos, sendo 80,6% importados (US$ FOB 3,071 bilhões) e apenas, 19,4% exportados (US$ FOB 740 milhões).

Existem várias razões, já amplamente discutidas pelas entidades de classe farmacêuticas brasileiras, para este comércio exterior tão desfavorável ao Brasil. Algumas razões são mais antigas outras mais recentes. Mas o tema continua em aberto, sem solução aparente.

O comércio exterior é sempre uma via de mão dupla, a gente já sabe há muito tempo. Contudo entendemos que o Brasil, com o mercado enorme que tem, com a sua indústria farmacêutica altamente qualificada, com uma plêiade de cientistas (basicamente nas universidades) de vasto conhecimento científico e, porque não dizê-lo, com os esforços do Governo brasileiro em financiar importantes projetos do setor (via BNDES), merece um comércio exterior  menos desigual.

Este deve ser um dos desafios dos nossos dirigentes, tanto da área reguladora como da área regulada, para os próximos anos.

E que estes anos estejam bem próximos…